Sistema que regula armas nucleares enfrenta crise mais grave em décadas, alerta ONU
A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que "o sistema global que regula as armas nucleares enfrenta a sua crise mais grave em décadas", após o abandono da maioria dos principais acordos.
Num comunicado divulgado na sexta-feira, a ONU sublinhou que "a maioria dos acordos da época da Guerra Fria foram abandonados ou expirados", após uma "nova era de desconfiança".
A nota dá como exemplo o Tratado Novo START entre a Rússia e os Estados Unidos, que limitava o desenvolvimento de ogivas nucleares estratégicas e que expirou em fevereiro.
O comunicado surgiu três dias antes do início, em Nova Iorque, da conferência de revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que entrou em vigor em 1970 e é assinado por quase todos os países do mundo, com as exceções de Israel, Índia e Paquistão.
As duas últimas conferências de revisão, realizadas em 2015 e 2022, terminaram "sem acordo sobre um documento final substancial, sublinhando a profunda divisão que persiste entre os Estados em relação às prioridades, obrigações e ao caminho a seguir", lamentou a ONU.
O tratado será novamente revisto entre 27 de abril e 22 de maio, e será avaliada a eficácia da sua implementação, bem como a possibilidade de progressos no desarmamento, na moderação e na cooperação, no contexto dos atuais desafios de segurança.
Em caso de um terceiro desacordo consecutivo, o tratado "não vai implodir de um dia para o outro", mas isso corre o risco de se desfazer com o tempo, admitiu o secretário-geral da conferência, Christopher King.
"Acredito que existe um sentimento de crise partilhado" entre todos os Estados Partes do tratado, comentou, também na sexta-feira, a Alta Representante das Nações Unidas para os Assuntos de Desarmamento.
"A ameaça do uso de armas nucleares está a tornar-se mais frequente, e não queremos que isso normalize", declarou Izumi Nakamitsu.
"Quanto mais Estados possuírem armas nucleares, maior será o risco da sua utilização acidental", acrescentou, durante uma conferência de imprensa.
Ainda assim, Nakamitsu afirmou que o evento oferece uma oportunidade num contexto de segurança extremamente difícil e no meio de uma retórica cada vez mais preocupante.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a conferência "não será uma mera formalidade burocrática".
Numa mensagem enviada aos participantes, o português disse acreditar que são eles que "a devem orientar para um resultado bem-sucedido, porque está em causa o futuro da ordem nuclear mundial".
De acordo com o último relatório do Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo, os nove Estados com armas nucleares (Rússia, França, China, Índia, Paquistão, Israel, Coreia do Norte, Reino Unido e Estados Unidos) possuíam 12.241 ogivas nucleares em janeiro de 2025, 90% das quais pertenciam aos Estados Unidos e à Rússia.